
hoje ela completaria 70 anos.
sua cabeça estaria completamente tomada de fios brancos.
era vaidosa demais pra envelhecer, mas dizia que os cabelos brancos eram como cicatrizes.
eram exibidos com orgulho, como se indicassem tudo o que ela viveu.
eu, particularmente, acho que ela teria mudado de idéia.
ela enlouquecia com nossas crises de asma e bronquite.
por isso, meu irmão e eu ganhamos uma tartaruga.
ela dizia que era simpatia. tentou de tudo pra gente respirar melhor.
se eu pudesse, hoje pediria desculpas por fazer TANTO barulho na porta de seu quarto nas manhãs de sábado pra acordá-la.
eu não conseguia ficar muitas horas longe dela.
eu saía da escola e, muitas vezes, ia pra escola dela. só pra ficar pertinho.
todos os dias, quando ela chegava do trabalho, fazia bolo.
nunca entendi como alguém era capaz de fazer bolo como se descascasse uma banana.
ela gostava de ter minhas amiguinhas e amiguinhos por perto.
a chris sempre foi sua preferida. elas se tratavam como mãe e filha.
um dia fiquei com ciúme porque ela tava dando conselhos pra chris sobre o seu namoradinho, que morava na rua de cima. o apelido dele era "perna".
comigo ela não falava sobre isso porque eu era 3 anos mais nova.
quando eu e a chris brigamos, ela deu um jeito da gente fazer as pazes numa feira de ciências.
ela tinha tanta certeza que seu plano daria certo, que comprou uma roupa preu ir na festa de 15 anos da chris (que eu tinha certeza que nao seria convidada)
ela tinha um orgulho bobo de tudo o que eu fazia.
dizia que eu nadava feito um peixinho.
nos jogos de vôlei, vibrava como se eu estivesse a caminho da seleção!
toda vez que contava que eu aprendi a ler e escrever sozinha, ela crescia.
sempre me fez cuidar dos dentes porque quando eu ria, todos eles apareciam.
sempre cuidou da minha alimentação porque sabia que eu engordava só de olhar prum quindim.
dizia que meus olhos eram exatamente da mesma cor dos olhos do meu avô.
meu avô se chamava salvatore armando capuano.
nunca o conheci, mas ela dizia que ele sempre sonhou um ter uma netinha gordinha que usasse aquelas calcinhas de babadinho em cima da fralda.
ele conheceu todos os netos homens, a neta magricela (minha prima), e foi pro céu antes de ter sua gorducha de pernas tortas com uma fralda pra lá de grandinha.
ela me ensinou que quando ia em festas acompanhando meu pai, e as mulheres começavam a falar da europa, ela ficava quieta como se tb conhecesse tudo aquilo.
morreu sem conhecer a áustria.
a mesma áustria que eu e ela visitávamos nos filmes da sissi e na noviça rebelde.
sempre que ela tentava contar uma história que achava muito engraçada, nao conseguia porque gargalhava tanto no meio, que desistia.
eu faço exatamente a mesma coisa. minhas amigas gostam qdo faço isso.
sempre imitou a elis regina.
ela era parecida mesmo com a cantora.
imitava o corte de cabelo, a sobrancelha e ouvia seus discos incansavelmente.
gostava da elizeth cardoso e do chico.
venerava o paulinho da viola.tratava o frank sinatra com intimidade (my old blue eyes, dizia)
seu único homem foi meu pai. o amor mais bonito de todos.
não sei se foi feliz por completo.
criou 5 filhos, sendo que 1 foi adotada quando já tinha 19 anos de idade e tinha problemas mentais.
foi professora e diretora de escola pública.
nunca desistiu do ensino, mesmo quando tudo já parecia perdido.
um dia ela "esqueceu" o carro na escola, só pro meu irmão levá-la lá de moto!
cara de pau! ela queria mesmo um rolê na motoca do zé!
só discutimos uma vez. foi depois de uma ida ao shopping.
eu queria o disco na novela, e ela já tinha me comprado uma jaqueta.
apanhei quando cheguei em casa.
ela nunca tinha me batido. quando tentou, me deu uma mordidas e puxou meu cabelo.
eu ri. ri muito porque não doía e ela estava tão brava comigo!
depois eu chorei porque a tinha deixado aborrecida.
deixá-la chateada doeu mais do que qualquer surra (que ela não conseguiria me dar)
a gente adorava assistir jogos de vôlei juntas.
também adorávamos a novela "vale tudo". a última que vimos juntas.
meus bolinhos de arroz são melhores que os dela, mas a receita original veio da nanica mais amada do brasil.
ela queria que eu usasse colarzinhos de pérolas e roupas de linho.
hoje ela me infernizaria preu usar terninhos e salto alto.
17 anos se passaram e eu não sei como teria sido a vida com ela.
em 17 anos, não teve um só dia em que eu não tenha lembrado ou falado dela.
eu fiz o que era preciso, e no meu aniversário de 30 anos, tive certeza de que me tornei quem ela gostaria que eu fosse.
fiquei devendo o casamento e os filhos, mas ela entenderia essa parte.
ela coçava nossas costas até que nós dormíssemos.
o fefe já tinha 21 anos, eu 12 e ainda brigávamos pela fila dos fiozinhos de carinho.
até o dia dia 21 de outubro de 1992, eu nunca dormi sem ouvir a seguinte sequência de palavras que só faziam sentido pra nós duas:
"ah, te peguiça, tôqui, quepanhá, cobilinha, cotonho, gibamba, ômbidizi, vánumí, eu te amo!"
mesmo quando eu dormia na casa de alguma amiga ou ela estava viajando, eu só pegava no sono depois de ouvir ela falando isso!
detalhe: ela nao tinha a menor vergonha de falar isso ao telefone na frente de estranhos.
hoje eu e ela vamos passar o dia na áustria com a sissi e com a irmã maria.
só eu e ela.
feliz aniversário, mamãe.
e eu já não acho mais que carucita é um pequeno caroço!